Progresso ou Esquecimento? 80 anos do Colégio Santa Bernadete em Amargosa

Fundado pelas Irmãs Sacramentinas, o Santa Bernadete nasceu antes mesmo de ser plenamente compreendido como instituição pública.

Há palavras que, de tanto repetidas, parecem perder o peso, mas não a consequência. “Progresso” é uma delas. Em seu nome, constroem-se prédios, inauguram-se equipamentos, deslocam-se histórias. Em seu nome, também se fecham portas que por décadas estiveram abertas. É sob essa tensão, entre o que se ergue e o que se apaga, que registramos os 80 anos do Colégio Estadual de 2º Grau Santa Bernadete, em Amargosa.

Fundado pelas Irmãs Sacramentinas, o Santa Bernadete nasceu antes mesmo de ser plenamente compreendido como instituição pública. Sua origem carrega a marca de um projeto educativo profundamente vinculado à formação humana, à disciplina do espírito e ao compromisso com a comunidade. As religiosas não apenas ergueram um prédio escolar, instituíram um modo de educar que combinava rigor, acolhimento e sentido de missão. Era uma escola que se pensava como extensão da vida.

A esse esforço inicial somaram-se outros gestos decisivos. A criação do colégio também se deve ao empenho do primeiro bispo da diocese, Dom Florêncio, e à generosidade do Coronel Benedito Almeida, que doou o terreno de sua chácara para que ali se erguesse uma instituição de ensino. Desde o princípio, portanto, o Santa Bernadete foi fruto de uma convergência rara entre vocação religiosa, compromisso público e participação da comunidade local.

Entre as Irmãs Sacramentinas, é preciso nomear aquelas que marcaram de modo mais direto a memória recente da instituição e da cidade, Irmã Maria Marta, Irmã São Paulo, Irmã Blandina, Irmã Gotarda, entre outras que, além do trabalho educativo, mantinham forte atuação na paróquia e em ações voltadas à atenção aos mais pobres. Sua presença não se restringia aos muros da escola, ela se estendia à vida comunitária, em um testemunho de serviço que atravessou gerações e, em muitos casos, perdurou mesmo após o encerramento das atividades do colégio. Amargosa deve muito a essas mulheres.

Ao longo de sua trajetória, o colégio atravessou transformações significativas até consolidar-se como escola pública estadual, condição que manteve por 52 anos. Nesse período, tornou-se referência educacional na região, formando gerações de estudantes que ali encontraram não apenas conteúdos, mas caminhos. O Santa Bernadete foi, para muitos, o primeiro espaço onde o mundo se ampliou.

É impossível narrar essa história sem reverenciar aqueles que a conduziram. Diretoras que, com estilos distintos, deram continuidade a um mesmo compromisso, Maria da Conceição Resende, Marinalva Bulhões, Marisa Borges Salles, Dislene Cardoso, Graça Maria Magalhães, Edelzuita Magalhães Batista, esta última, a única eleita pela comunidade escolar, Silvandira Chaves, Joilma da Guarda, Anete Reis e Neilton Borges. A elas e a todos da equipe diretiva que compartilharam a responsabilidade da gestão, cabe o reconhecimento por manter viva a identidade do colégio em tempos diversos e, por vezes, adversos.

Mas uma escola não se sustenta apenas na direção. Ela pulsa nas salas de aula, nos corredores, nos encontros cotidianos entre professores e alunos. O Santa Bernadete teve entre seus quadros nomes que marcaram profundamente a experiência educativa local, Isabel Muniz, Belarmina, entre tantos outros que fizeram do ensino uma prática de compromisso e presença. Evocá-los aqui é mais do que lembrar, é reconhecer uma linhagem de educadores que ajudaram a constituir o que hoje somos.

Há, ainda, um traço singular dessa instituição, muitos de seus alunos tornaram-se professores. Não apenas por vocação individual, mas porque ali aprenderam que ensinar é um gesto de continuidade. O colégio formava, de algum modo, seus próprios herdeiros. Havia uma espécie de círculo virtuoso em que aprender e ensinar se entrelaçavam como partes de uma mesma experiência.

A missão do Santa Bernadete sempre foi clara, ainda que nem sempre explicitada em documentos formais, zelar pelo desenvolvimento pleno dos alunos no campo humano, social e intelectual, valorizando o aprendizado como instrumento de emancipação. Essa missão não se esgotava no currículo, ela se realizava nas relações, nas expectativas, nos exemplos.

E então veio o tempo em que o “progresso”, novamente ele, apresentou sua conta. Em nome de uma reorganização, de uma racionalização dos espaços ou de uma modernização da rede, o Colégio Santa Bernadete foi fechado para unir-se ao Colégio Pedro Calmon em um novo local. A lógica é conhecida, otimizar recursos, concentrar estruturas, atualizar o modelo. Tudo parece fazer sentido no papel.

Mas há algo que não se transfere, a memória sedimentada, o pertencimento, a história vivida em um lugar específico. Prédios podem ser substituídos, instituições, nem sempre. Quando uma escola fecha, não se encerram apenas atividades, interrompe-se uma continuidade simbólica que dificilmente se recompõe em outro endereço.

É nesse ponto que o debate ultrapassa o passado e se projeta no presente. O antigo prédio do Santa Bernadete, especialmente sua fachada, não é apenas uma estrutura física, é um marco de memória coletiva. Sua preservação deveria ser tratada como responsabilidade pública. O silêncio das autoridades municipais, nesse aspecto, inquieta. Não se trata de imobilizar o espaço, mas de reconhecer seu valor histórico e simbólico.

O tombamento do prédio surge, assim, não como gesto nostálgico, mas como medida de respeito à história. Mais do que isso, seria desejável que o espaço encontrasse um novo destino voltado à cultura, à educação ou à memória, usos que prolonguem, sob outras formas, a vocação que lhe deu origem. Ignorar essa dimensão é abrir caminho para o risco, sempre presente, de descaracterização, abandono ou mesmo desaparecimento.

Não se trata, aqui, de recusar o novo por apego ao antigo. Trata-se de perguntar, com a serenidade que o tempo permite e com a inquietação que ele exige, o que, de fato, estamos chamando de progresso. Se avançar implica esquecer, talvez seja preciso rever a direção.

Celebrar os 80 anos do Colégio Estadual Santa Bernadete é, portanto, mais do que um gesto comemorativo. É um ato de reconhecimento. Reconhecimento de uma instituição que marcou profundamente a educação em Amargosa, de educadores que fizeram do ensino uma prática de vida, de estudantes que ali descobriram horizontes e, muitos deles, retornaram como mestres.

O Santa Bernadete permanece, não como prédio apenas, mas como legado. E legados, quando verdadeiros, não se encerram com decretos administrativos. Eles continuam a agir, silenciosamente, nas trajetórias que ajudaram a formar.

Talvez seja essa a resposta mais consistente ao “progresso” que apaga, lembrar não como saudade paralisante, mas como afirmação de sentido. Porque há histórias que, mesmo deslocadas, insistem em permanecer.

E ainda bem.

Prof. Antônio Clóvis (Historiador)
Prof. Pedro Miguel (Filósofo)

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