Muso da X-9 é ex-morador de cortiço e flanelinha: ‘Tinha tudo para dar errado, mas o esforço e a fé foram maiores’

Igor Maximiliano diz que família e educação o fizeram ter destino diferente de muitos amigos que foram para tráfico e estão presos; após participar do Dança dos Famosos do Faustão, ele vai desfilar no carnaval com fantasia inspirada em Luma de Oliveira.

O muso da escola de samba X-9 Paulistano Igor Maximiliano, 32 anos, sonha em cruzar o Sambódromo do Anhembi com sua escola como campeã do Grupo Especial, e ele entende de superação. Nascido em Santos, Igor foi morador de cortiços na cidade e trabalhou como flanelinha na frente do Teatro Municipal da cidade. Foi ali que começou a sonhar em se tornar bailarino, sua atual profissão.

“Eu ia para a frente do teatro trabalhar e via a galera entrando para dançar. Meu primo já dançava e me incentivou, aí comecei a me interessar. A gente como morador de cortiço tinha de ajudar em casa, e a primeira coisa que nossa mãe falou é que não importava o que acontecesse, a gente tinha de correr atrás dos nossos sonhos e estudar enquanto ela corria atrás do nosso arroz, feijão e roupas”, relembra.

A mãe a que se refere Igor é adotiva e se chama Samara Faustino. A mãe de sangue morreu quando ele tinha 12 anos e como o pai estava preso há 10 anos, ele foi morar no cortiço.

“Ela me disse ‘onde comem dois, comem três’. Eram 20 pessoas em uma casa. Ela acolhia todo mundo que precisasse. Se um adulto fosse preso, ela acolhia as crianças que não tinham para onde ir. Eu fui um deles. Se não fosse isso teria entrado no mundo das drogas e do tráfico”, afirma.

Veja o recado do Igor Maximiliano, muso da X-9 Paulistana

Igor tem muitos amigos dessa época que não tiveram o mesmo destino que ele.

“Até hoje muitos amigos meus do cortiço estão presos, foram mortos ou estão viciados… A gente tinha tudo para dar errado porque a companhia não era boa, a qualidade de vida não era boa, mas o esforço e a fé era o que mais tinha”, emociona-se.

Igor acredita que a família, educação e a fé – ele é budista – foram fundamentais para que seu destino fosse diferente“Quando a gente ouve que família e educação são as bases de tudo, realmente é verdade. Independente da minha mãe ser faxineira e meu pai presidiário, eu sempre estudei. Eu era um menino levado como qualquer criança, mas depois que minha mãe morreu, minha segunda mãe Samara criou ainda mais minha personalidade. Ela colocou o budismo na minha vida, que me ajudou muito. A fé também faz parte, a gente quer ser melhor quando a gente acredita em algo. Esse meio não deixou eu me abalar”, reflete.

Samara, a mãe adotiva, é o maior exemplo de Igor.

“Eu via uma mulher negra pobre, em um cortiço, casa mofada, com goteiras, onde a gente podia pegar doenças, que muitas vezes inundava quando chovia… Muitas vezes a gente não tinha mistura, era arroz e feijão, ou arroz e farinha. Mas com ela era ‘vamos viver’, nunca botou ninguém na rua. E ver essa força dela, o mínimo que eu tinha de fazer era retribuir trabalhando, estudando. Ela era o exemplo, a arte e a dança foram minha segunda base.”

O gosto de Igor pelo carnaval também veio de Samara. “Foi uma projeção, ela já foi princesa da bateria da Mangueira, a família toda é da arte”.

Depois de anos estudando dança, Igor começou a fazer as primeiras audições aos 16 anos para programas como Criança Esperança.

“Eu lembro que eu só tinha uma calça vermelha de franjas e meu primo uma branca, que a gente pegou emprestada de um amigo dele. Não tínhamos as mesmas condições das outras pessoas que concorriam conosco, principalmente das brancas, que têm mais oportunidades que as negras nesse país que a gente vive. ”

Aos 18, Igor estreou como ator no filme “Querô”, baseado na obra de Plínio Marcos. Ele também fez parte do elenco do filme “Salve Geral” (2009), protagonizado por Andréa Beltrão.

“Fui vendo que existem outros mundos, outros meios, que eu não precisava me revoltar e traficar, me revoltar e roubar, matar, destruir… A gente tinha o Teatro Municipal como família, a nossa casa como base e o nosso interesse pela arte para criar inclusive mais expectativa de vida”, afirma.

“Eu sou muito feliz por poder ser inspiração para outras pessoas. Não porque eu seja o melhor, mas porque eu fiz diferente. E quando a gente faz a diferença a gente pode mostrar que outras coisas podem agregar na sua vida.”

Desde as primeiras audições, Igor já foi trabalhar como bailarino na Coreia do Norte, Japão, Noruega, Inglaterra, Espanha e Alemanha.

Em 2019, Igor participou de uma seletiva e derrotou 12 mil candidatos para se tornar bailarino do quadro Dança dos famosos, do “Domingão do Faustão”. O bailarino ficou em sexto lugar e foi escolhido para ser par com a cantora Fernanda Abreu.

“Foi um divisor de águas na minha vida! Além de aprender muito, adquirir experiência e criar mais valores, foi uma honra conhecer o outro lado de Fernanda Abreu e o quanto ela é divertida e ímpar. O quadro só agregou na minha vida. E a Fernanda também. Hoje é minha amiga pessoal. Dividimos tudo e para mim isso não tem preço”, afirma.

Igor é muso da X-9 há sete anos. Nessa época do ano ele só pensa em carnaval.

“Carnaval dá muita projeção. No primeiro ano eu escorreguei e caí na chuva, aí que comecei a malhar, me alimentar direito. Fui correr atrás e ir para a academia. Ser conhecido como muso só a X-9 me deu. A maioria dos homens no carnaval são conhecidos como malandros, mas meu estilo é outro, não é mocassim, terno e chapéu, eu sou mais showman, é o que eu gosto de fazer e ser. E ser conhecido neste mundo pelo que gosto de ser é maravilhoso. O que posso adiantar é queno desfile desse ano não tem malandragem, vai ser pouca roupa. E digo mais:a fantasia vai ser inspirada em Luma de Oliveira. ”

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G1/ Foto: Fábio Tito/G1