Cura instantânea de cegueira motivou canonização de Irmã Dulce pelo Vaticano

Ela teve o seu segundo milagre reconhecido pelo Vaticano.

A cura instantânea da cegueira de um homem de cerca de 50 anos foi o milagre ratificado pelo Vaticano para a canonização da religiosa baiana Maria Rita Lopes Pontes, a Irmã Dulce.

Ela teve o seu segundo milagre reconhecido pelo Vaticano e deverá ser canonizada pelo papa Francisco como a primeira mulher brasileira declarada santa.

O paciente, que ainda não teve o nome divulgado, conviveu com a cegueira durante 14 anos e voltou a enxergar de forma permanente desde 2014.

A cura teria acontecido em um dia em que este paciente estava com uma conjuntivite e com dores agudas nos olhos e clamou por Irmã Dulce por uma solução. No dia seguinte, ele teria voltado a enxergar.

“Não tinha explicação. Era um paciente que estava cego e que de um dia para o outro ele volta a enxergar, sem explicação”, afirma Sandro Barral, médico das Obras Sociais Irmã Dulce e que foi perito inicial da causa.

O paciente –que antes de ficar cego trabalhava na área de informática– caminhava com a ajuda de uma guia e tinha acabado de receber um cão guia que havia sido treinado exclusivamente para acompanhá-lo no dia a dia.

Antes de ser encaminhado para Roma, o caso foi analisado por oftalmologistas de Salvador e São Paulo, que examinaram pessoalmente o paciente e não encontraram explicação para a cura.

“Tem uma coisa que é ainda mais espetacular: os exames dele são de um paciente cego. Porque tem lesões pelas quais o paciente não deve enxergar. E ele enxerga”, afirmou Sandro Barral.

O milagre foi avaliado por uma comissão de médicos em Roma, que também não encontraram explicação científica para o acontecimento. Na sequência, o caso foi analisado por uma comissão de teólogos e depois por uma comissão de cardeais.

“Um milagre, para ser reconhecido como tal, tem que ser instantâneo e duradouro. Este caso foi estudado, foi aberto um processo e se viu que havia fundamento muito sólido”, diz o arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger.

Segundo o arcebispo, em julho deste ano deve acontecer o consistório, evento no qual o papa convoca os cardeais para anunciar o reconhecimento de novos santos.

A partir daí, será marcada a canonização, que deve acontecer em Roma, quando Irmã Dulce passará a ser chamada Santa Dulce dos Pobres.

CELEBRAÇÃO

A notícia da canonização de Irmã Dulce foi celebrada na tarde desta terça, em Salvador, quando cerca de mil fiéis participaram de um abraço simbólico ao santuário dedicado à freira baiana e de uma missa celebrada no local.

Com lágrimas nos olhos, a aposentada Alede Couto Costa, 64, se disse realizada em ver Irmã Dulce ser reconhecida pelo Vaticano.

“Para mim ela sempre foi santa. Sempre foi uma mãezona não só dos baianos, mas de todos que se servem desta obra que ela deixou. Foi uma vida e muito amor e dedicação”, afirmou.

A madre Irmã Olívia, que faz parte da mesma congregação desde 1976 e conviveu com Irmã Dulce ainda em vida, classificou o dia como histórico e disse que rezou muito para que ele chegasse.

“Irmã Dulce era uma pessoa alegre, simples, de muita fé, coragem e entusiasmo pelo bem ao próximo. Todo mundo queria ficar junto dela, parece que a força dela puxava a gente. Eu sentia isso bem”, lembra.

Ela ainda destacou a importância do legado da religiosa com Obras Sociais Irmã Dulce: “É um milagre a gente ter essa obra que começou com um galinheiro e agora a gente tem uma santa, uma santa brasileira, uma santa para a gente viver o testemunho dela”, afirmou.

Sobrinha de Irmã Dulce e gestora das obras sociais, Maria Rita Pontes também destacou o legado de realizações da religiosa nas Obras Sociais Irmã Dulce, que completam 60 anos no próximo dia 26 de maio. 

“Santa para nós ela sempre foi. Santa pelos milagres que somos testemunhas no dia a dia, das dificuldades que vivemos e sempre aparece uma solução. Ela está presente entre nós”, afirmou. 

TRAJETÓRIA

Nascida em 1914 em Salvador, Irmã Dulce, que ficou conhecida como “anjo bom da Bahia”, teve uma trajetória de fé e obstinação na qual enfrentou as rígidas regras de enclausuramento da Igreja Católica para prestar assistência a comunidades pobres de Salvador, trabalho que realizou até a morte, em 1992.

Ingressou na vida religiosa como noviça na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição,  em São Cristóvão (SE). 

Em Salvador, passou a se dedicar a ações sociais. Em 1959, ocupou um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio e improvisou uma enfermaria para cuidar de doentes. Foi o embrião das Obras Sociais Irmã Dulce, que atualmente atende uma média de 3,5 milhões por ano.

O processo da causa da Canonização foi iniciado em janeiro de 2000 e seu primeiro milagre foi validado pela Santa Sé em 2003, pelo então papa João Paulo 2º.

O milagre reconhecido teria acontecido na cidade de Itabaiana, em Sergipe, quando as orações a Irmã Dulce teriam feito cessar uma hemorragia em Claudia Cristina dos Santos, que padeceu durante 18 horas após dar a luz ao seu segundo filho. 

Em abril de 2009, o papa Bento 16 concedeu o título de Venerável à freira baiana, que se tornou a “Bem-aventurada Dulce dos Pobres”. Ela foi beatificada dois anos depois em uma cerimônia religiosa que reuniu 70 mil pessoas em Salvador.

Folha.Uol / Foto: João Pedro Pitombo/Folhapress